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Servidores do Inep detalham censura em questões da história recente no Enem

Servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) que pediram demissão de seus cargos no órgão detalharam em entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo, quais foram as interferências exercidas sobre a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Os funcionários, que não quiseram se identificar, dizem que o conteúdo das provas foi censurado, como já havia relatado o presidente da Assinep (Associação dos Servidores do Inep), Alexandre Retamal. Desta vez, porém, um dos trabalhadores explicou que o diretor de Avaliação de Educação Básica, Anderson Oliveira, pediu a remoção de mais de 20 questões da primeira versão da prova deste ano que havia sido elaborada.

De acordo com um dos funcionários, a maior parte da censura foi aplicada em cima de questões que envolvem contextos sociopolíticos ou socioeconômicos, em especial as que giram em torno da história dos últimos 50 anos do Brasil.

Os funcionários sustentam que, do ponto de vista técnico, não havia motivos para as questões serem removidas. As perguntas da prova do Enem são escolhidas pela equipe técnica do Inep de um repositório chamado Banco Nacional de Itens — um banco de questões elaboradas por professores escolhidos por edital.

“O grande erro é achar que você pode simplesmente pegar uma prova e sair riscando itens cujo conteúdo você não gosta”, falou um servidor.

Intimidação de servidores

Os servidores explicaram na entrevista que a prova do Enem só é preparada e analisada dentro de um ambiente seguro, protegido em diversas etapas por detectores de metais e portas que só são abertas com a biometria dos profissionais autorizados. Além disso, a sala está toda cercada de câmeras, sem nenhum ponto cego.

Mesmo assim, eles chegaram a ser surpreendidos neste ano com a presença inesperada de um policial federal, que chegou ao ambiente seguro e pediu para ver a prova. “O Inep precisa explicar como essa pessoa foi parar lá dentro, quem autorizou a entrada, o que ele fez, que nível de controle a gente tem sobre as informações que ele acessou estando lá”, cobrou um funcionário.

Os servidores avaliam que a motivação da presença do policial foi de intimidá-los.

Outra ação que eles consideram que foi feita com o objetivo de intimidação foi um pedido de incluir 22 novos nomes na lista de pessoas autorizadas a ter acesso à prova do Enem. Após reclamações dos funcionários, o presidente do Inep, Danilo Dupas, voltou atrás na tentativa de acrescentar os nomes.

Em seguida, porém, os servidores relatam que também foram excluídos da função parte dos servidores técnicos que já trabalhavam na área. Com isso, eles alegam que ficaram sobrecarregados.

A tentativa de inclusão é, na opinião dos servidores que deram entrevista ao “Fantástico”, uma forma de retirar da prova conteúdos que poderiam desagradar ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Bolsonaro já expressou diversas vezes, desde 2018, logo após ser eleito, sua vontade de interferir no conteúdo do Enem.

“Chega a ser chocante uma prova que não é da gestão atual, que não é do governo atual, que é uma política de Estado para a população brasileira e por isso a nossa necessidade de estarmos aqui e falarmos que essa prova é da sociedade brasileira e deve ser defendida”, resumiu um dos funcionários.

O que diz o Inep

Ao Fantástico, o Inep disse que a visita do policial federal fazia parte de uma avaliação da segurança e que não houve acesso aos conteúdos armazenados.

Além disso, o órgão falou que nem o presidente do Inep, nem o ministro da Educação tiveram acesso à prova e que o diretor de Avaliação da Educação Básica, Anderson Oliveira, tem respaldo e confiança da gestão do Inep. Ele não quis se manifestar. UOL

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