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FOTO OU SELF?

Durante o período entre 2015 – 2019, que estive como professor no colégio de nível médio, fiz essa pergunta aos estudantes e pedi que narrassem a diferença para pontos que acrescentaria nas notas já que é assunto do universo trivial do linguajar na moda!

O quadro As Meninas (1656) de Diego Velásquez (1599-1660) século 17, é um quadro sobre a representação. Pesquisadores de vários campos do conhecimento, como a história das artes, a literatura, a filosofia e a psicanálise, continuam a buscar uma interpretação fidedigna do quadro. O tempo não desgasta o quadro, mas enriquece, motivo pelo qual cada geração deve aceitar o desafio de interpretá-lo, revitalizando-o perpetuamente.

Diego Rodriguez de Silva y Velásquez (1599-1660), nascido em Sevilha, foi nomeado em outubro de 1623 “pintor do rei” – encarregado de retratos reais -, passando a residir em Madri com a família (BUENDIA e ÁVILA). Além dessa função, era responsável pelas habitações, mobiliário e limpeza do palácio.

Em 1656, Velásquez finaliza sua obra célebre, conhecida como As Meninas expressão portuguesa aplicada às damas de honra – ou de companhia – da princesa Margarida Maria, representada no centro do quadro. Em 1666, no inventário do palácio, esse quadro havia recebido a denominação de “Su Alteza la Emperatriz com sus damas y um enano”. Em 1734 foi intitulado “La família del rei Felipe IV”. Somente em 1843 recebeu a denominação de “ Las Meninas”, quando foi incluído no catálogo do Prado por Pedro de Madrazzo.

Detalhe: Diego Velázquez            Detalhe: Infanta Margarida de Áustria                    

Detalhe: Espelho do fundo onde estão refletidos Filipe IV da Espanha e Mariana de Áustria

Detalhe: María Agustina Sarmiento de Sotomayor

As Meninas é a “teologia da pintura”, diante da complexidade oculta por trás da simplicidade aparente da obra. O quadro foi analisado nada mais nada menos por: Immanuel Kant, filósofo(1724-1804), dentro do Idealismo Transcendental”; Friedrich Hegel, filósofo(1770-1831), dentro da filosofia do “Idealismo absoluto”; Arthur Schopenhauer, filósofo (1788-1805), dentro da concepção filosófica de “ O Mundo como Vontade e como Representação, destaque que, a visão até então acontece antes da revolução industrial; Sarte, filósofo e escritor(1905-1980), na filosofia do Existencialismo, em Ontologia da Imagem; Michel Foucault, filósofo(1926-1984), em As Palavras e as Coisas, como marco da episteme clássica, destaco a escolha da análise deste quadro, da época de Descartes, no primeiro capítulo de seu livro: Há ali um vazio essencial. As pessoas que ele figura (no espelho, o rei Felipe IV e a rainha Mariana) e os espectadores que olham para eles estão ausentes; Jacques Lacan, médico e psicanalista(1901-1981), uma das hipóteses de interpretação do quadro que mais lhe seduziu foi a de que o pintor deve ter visto toda a imagem por meio de um espelho, já que ele também se encontra ali, entre os personagens, de frente para nós, espectadores. Nesse caso, o espelho estaria no lugar do espectador e somos também transformados em espelhos. O destaque até então é que estamos antes da revolução tecnológica da internet.

UMA LEITURA PSICANALÍTICA

Ao afirmar que o retrato, o sujeito central, é o próprio Velásquez, à conclusão funda na série Velásquez, rei/rainha, modelo, observador, uma significação a da nobreza e muito provavelmente, a do narcisismo do pintor que se coloca como objeto observado, confundido com as figuras reais que são possíveis modelos, ou entre a família real. Pela leitura da conclusão, emerge a posição do pintor frente ao quadro, o lugar de onde se pode dizer não somente da nobreza, mas principalmente da genialidade de Velásquez.

NA MODERNIDADE

Hoje, tudo se fotografa e as imagens funcionam como recortes daquilo que se gostaria de ser, representando um ideal de ego, isto é como gostaríamos de ser vistos ( Revista Psique, Edição 150, páginas 22-25). Surpreendi-me, também, por não ter me espantado, assisti à cena como quem contempla um movimento habitual do sujeito contemporâneo: a pausa para a fotografia.

Posto, logo existo

As fotos hoje são compartilhadas em busca de validação de uma experiência. É preciso que alguém testemunhe minha vivência, assista às minhas experiências, dê likes nos meus registros fotográficos para que a cena seja completa. A função de uma rede social é a de uma platéia que assiste, contempla, celebra um fragmento do tempo recortado e editado numa imagem.

Como uma mãe que aplaude o filho em seus passos, os amigos virtuais reafirmam nosso narcisismo: (há inclusive um emoji de palmas). “ A Arte da Vida; Capitalismo Parasitário; A Cultura No Mundo Líquido Moderno; A Sociedade Individualizada; Tempos Líquidos; Vida Líquida, Vida Para Consumo; Vidas Desperdiçadas; Vigilância Líquida; Medo Líquido – Zygmunt Bauman – sociólogo polonês”.

O espelho virtual representa algo muito valioso para todos nós. Esse espelho inaugura nosso psiquismo e traz uma sensação que buscamos a vida inteira: a de segurança.

Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.

Estamos todos unidos pelo mesmo fio, invisível e poderoso: o fio da ilusão. (Referências: Revista Psique, Edição 150).

REALIDADE REAL versus REALIDADE VIRTUAL versus REALIDADE PSÍQUICA

Porque colocamos aqui as relações virtuais e automaticamente explicamos e passamos a entender a realidade real, será que consideramos porque as relações virtuais não possuem materialidade! Os comportamentos virtuais são duvidosos em sua realidade off-line? Então o conceito de fantasia, cuja origem buscamos na obra de Freud e assim entrelaçarmos com o fenômeno internet em nosso tempo e avançarmos um pouco sobre essas realidade e a psicanálise. Freud se bateu com a histeria em 1896 para explicar os fenômenos das lembranças da puberdade como sintomas, que teriam ocorrido na infância e haviam sido ‘esquecidos’, tais fenômenos se reportaram a traumas na interposição das ‘fantasias’, com base nelas e de outros eram diretamente transformados em sintomas. Em formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico, nos revela que um tipo de atividade não se deixou dominar e não ficou submetido ao princípio do prazer que é o: fantasiar. Destaque ainda que é muito estranho que o teste da realidade não tenha nenhuma influência nos processos inconscientes no fantasiar.

FANTASIAR e INTERNET

Essa tecnologia, que integrou totalmente à paisagem cultural das últimas décadas, pode ser transformada num ‘estilo de vida’: viver aquilo que sempre se quis, ter os melhores amigos possíveis, ter uma profissão diferente da qual se escolheu, enfim ser ‘mais feliz’ ou seja, realizar tudo aquilo que sempre se sonhou, sem que a realidade seja levada em conta.

A partir de um computador pode-se construir uma avatar, escolher seu sexo, suas características físicas e psicológicas, entre outras coisas, e passar a se relacionar com outros avatares, vivendo no mundo totalmente virtual, em tempo real e sem barreiras da distância. Na internet temos não identidades mas perfis; além disso, ela se insere como uma nova forma de controle. Esses perfis criados serão idealizados e perfeitos.

CONSIEDRAÇÕES FINAIS

Os processos constitutivos do Eu se repetem, e os conflitos intra e extrapsíquicos – reinvindicações narcísicas, interesses pessoais contra os do grupo – são os mesmos desde a aurora da humanidade: a compulsão à repetição ( Ceccarelli. Laço social: uma ilusão frente ao desamparo, Belo Horizonte, set. 2009 – Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.), extraído do trabalho apresentado no XXI Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise e no I Congresso Internacional de Psicanálise.

Estamos, no fundo, diante de quadro antigo emoldurado diferentemente, com novas camadas de tintas que se superpõem às antigas: um quadro aparentemente novo, sem nenhum vestígio do que foi. As sensações de castração, a falta, o desamparo, a angústia e a incompletude nas ausências. (Referências: Gessé Duque Ferreira de Oliveira e Paulo Roberto Ceccarelli in: Virtual reality v. Psychic reality)

Autor: Osvaldo Alves de Sant´Anna

Psicanalista, Doutorando em psicanálise.

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